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Artigos Sergio Tamer

O VULCÃO VORCARO

Sergio Tamer6 min de leitura

 

Sergio Tamer é professor e advogado, presidente do Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública; da Avademia Maranhense de Cultura Jurídica, Social e Política – AMCJSP; e membro da Academia Maranhense de Letras Jurídicas – AMLJ

 

          O escândalo do Banco Master revelou uma das maiores redes de fraude e infiltração institucional do país, envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro com a cumplicidade de eminentes figuras públicas. O seu método de aliciamento de autoridades baseava-se em um tripé de blindagem financeira, infiltração institucional e forte intimidação privada. O impacto na campanha presidencial logo se fez sentir: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em 5 de outubro, um dia após as eleições, que sua campanha está “carregando nas costas” o que classificou como “promiscuidade que ficou estabelecida na Suprema Corte”, em referência às denúncias envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o dono do Banco Master.

          O banqueiro, é verdade, cooptava figuras influentes de Brasília por meio de repasses milionários e patrocínios de eventos jurídicos internacionais, além de filmes e de celebrar contratos astronômicos com escritórios de advocacia ligados a parentes de autoridades — como o contrato de R$ 131 milhões firmado com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Vorcaro subornava, ainda, servidores de dentro do próprio Banco Central (BC) para vazar informações fiscais e atrasar fiscalizações, além de infiltrar-se em instâncias policiais. O seu braço armado tinha o cognome de “A Turma”, na realidade uma milícia privada usada para intimidar desafetos. Esse grupo recebia até R$ 1 milhão por mês para rastrear, forjar assaltos e agredir fisicamente jornalistas, funcionários e adversários econômicos.

          Mas, apesar dessa farta promiscuidade nos três poderes da República, resta a pergunta: o que falhou para que Vorcaro, apesar dessa multimilionária rede de proteção, fosse preso e levasse sua instituição financeira à bancarrota??!!!…Ora, o esquema do Banco Master, operado por seu dono, teria desmoronado pelo menos por duas razões básicas: a magnitude insustentável da fraude financeira e a independência investigativa da Polícia Federal. De fato, a fraude do Banco Master alcançou uma escala gigantesca, gerando um prejuízo bilionário que forçou o Banco Central a decretar a liquidação extrajudicial da instituição em novembro de 2025 para evitar um colapso sistêmico. Por seu turno, a Polícia Federal ignorou as pressões políticas, reuniu provas robustas sobre a emissão de títulos falsos e descobriu os planos de violência física da milícia de Vorcaro.

O fator André Mendonça – Embora Vorcaro tentasse mover suas influências no Judiciário, a relatoria das fases mais duras da Operação Compliance Zero caiu nas mãos do ministro do STF André Mendonça que determinou a prisão preventiva de Vorcaro e o bloqueio de R$ 22 bilhões em bens. Antes dele, a primeira prisão de Vorcaro em Guarulhos foi decretada pelo juiz federal Ricardo Leite, de Brasília. O ministro Alexandre de Moraes (STF), contudo, não conseguiu evitar essas prisões do cliente do escritório de sua mulher. Com efeito, relatórios e mensagens extraídas pela Polícia Federal, em 2026, demonstraram que Daniel Vorcaro tentou desesperadamente usar seu canal com Alexandre de Moraes para se salvar, mas o ministro não pôde conter a ação penal. Conforme apurado pela PF, na véspera e no próprio dia de sua prisão, Vorcaro mandou dezenas de mensagens para Moraes, perguntando se “deveria fugir do país” e implorando para que o ministro “sensibilizasse” o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, a fim de atrasar a operação. No entanto, a operação policial já estava em andamento de forma estritamente técnica, e o vazamento ou interferência direta naquele estágio geraria um escândalo institucional imediato para o próprio magistrado.

          As investigações da Polícia Federal (PF), no âmbito da Operação Compliance Zero, revelaram uma extensa teia de influência do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário. Sabe-se que as principais autoridades e políticos identificados com maior proximidade ou citações nos relatórios e mensagens de Vorcaro, incluem: Ciro Nogueira (PP-PI); Flávio Bolsonaro (PL-RJ); Hugo Motta (Republicanos-PB), atual presidente da Câmara dos Deputados; Jaques Wagner (PT-BA); Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado; Antônio Rueda (União-RJ); ACM Neto (União-BA); além de outros, muitos outros…    Daniel Vorcaro deu dinheiro para filme sobre Lula em troca de negócios no governo

No âmbito do Executivo, algumas mensagens extraídas do celular de Vorcaro detalham uma reunião fora da agenda oficial realizada no Palácio do Planalto em dezembro de 2024, intermediada por Guido Mantega. No encontro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teria tratado de disputas financeiras e acalmado o banqueiro sobre fiscalizações do Banco Central. Guido Mantega atuava como consultor remunerado do Banco Master (com repasses estimados em R$ 1 milhão por mês) e funcionava como um dos principais articuladores de Vorcaro com o governo federal. Rui Costa é citado como um elo histórico desde operações financeiras na Bahia.

          Todavia, as autoridades e políticos citados nos relatórios da Polícia Federal negam categoricamente qualquer envolvimento em práticas ilegais, sustentando que os contatos mantidos com Daniel Vorcaro possuíam caráter estritamente institucional, corporativo ou de amizade circunstancial, embora de intensa e lasciva intimidade. Realmente, o rapaz era um conquistador inveterado, gostava de se divertir com belas mulheres, cujas companhias eram generosamente compartilhadas com seus convivas e comensais. Por outro lado, Vorcaro era disputado por muitos homens do poder em Brasília, ávidos por receber sua atenção financeira. Era, assim como César, e parafraseando Gaius Curio….“o homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens”…

           O vulcão Vorcaro, porém, continua em franca erupção. E a lava incandescente que dele escorre ameaça atingir os mais altos escalões da República. O que está em jogo já não é apenas a falência de um banco, nem a aventura de um financista que confundiu dinheiro com poder. Mas é a exposição de um sistema de relações promíscuas, no qual interesses privados procuram capturar instituições públicas e transformar autoridades em instrumentos de proteção e influência. O mais grave, portanto, já não é saber quantos políticos, magistrados ou governantes frequentaram os salões do banqueiro, mas quantos deles permitiram que os interesses da República fossem subordinados aos seus interesses particulares. Afinal, quando o dinheiro compra influência, a autoridade perde legitimidade e as instituições silenciam, sendo que o que entra em falência, caso não haja a devida investigação, já não é apenas um banco, mas a própria República.