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No país do Carnaval, por João Batista Ericeira

08 de Fevereiro de 2018
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O escritor Jorge Amado estreou nas letras nacionais, em 1931, com o romance “País do Carnaval"...


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 No país do Carnaval

  

João Batista Ericeira é professor universitário e sócio majoritário de João Batista Ericeira Advogados Associados

  

O escritor Jorge Amado estreou nas letras nacionais, em 1931, com o romance “País do Carnaval”, posteriormente, após o ingresso no Partido Comunista, produziu obra ficcional de denúncia social, apontando as mazelas do capitalismo periférico nacional. Integram esse período títulos vez por outra republicados ou adaptados pela dramaturgia do cinema e da televisão: Jubiabá, Mar Morto, Cacau, Capitães da Areia e a conhecida biografia de Luis Carlos Prestes, “O Cavaleiro da Esperança”.

Em seguida, o autor iniciou a saga do romance feminino, onde as narrativas desenvolvem-se em torno de mulheres como personagens principais: Gabriela, Teresa Batista, Dona Flor, tipos marcantes, representantes das qualidades do povo brasileiro em oposição aos defeitos de suas elites.

O escritor baiano rompeu com a forma machadiana de escrever, deixou de lado a língua das elites, passou a reproduzir as falas do povo, foi por isso acusado de violador da gramática, mas não se deteve na descrição de tipos que explicariam aquilo que os sociólogos rotulam de “alma nacional”.

Forneceu farto material para antropólogos e cientistas sociais decifrarem o Brasil e seu povo. Um dos trabalhos preferidos para esse fim é “Dona Flor e seus dois maridos”, levado ao cinema com o principal papel interpretado por Sonia Braga, foi o primeiro grande sucesso de bilheteria da cinematografia nacional, repetindo o mesmo feito na televisão.

Roberto Da Matta, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, visitante nas universidades de Wisconsin, da Califórnia, nos Estados Unidos; de Cambridge, é hoje um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros, autor do trabalho “Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro”, dedicou-se ao estudo de Dona Flor como romance-síntese para explicação do Brasil.

Vadinho, o malandro, boêmio, folião, morre em pleno tríduo carnavalesco, deixando a viúva dona Flor desolada, pois não obstante o desregramento, o desaparecido marido lhe completava. Se ela era a ordem, o dever, Vado era a transgressão, a sensualidade, mas um completava o outro.

Flor cumpre o ciclo da viuvez, e depois se casa com o doutor Teodoro Madureira, o farmacêutico certinho, outro como ela, representante da lei e da ordem. Aí começa a fase de enorme sofrimento para a heroína, entediada com a previsibilidade e certezas da vida marital com o boticário.

De repente, Vadinho começa a lhe aparecer, e Flor passa a conviver com os dois maridos: o primeiro criativo, sensual, carnavalesco, transgressor; o segundo, repetitivo, ordeiro, cumpridor dos deveres.

Para a análise antropológica do texto amadiano, na versão estruturalista, Flor é o Brasil, que convive de forma relacional com as duas vertentes: a formal, racional, e a emocional e carnavalesca.

Da Matta no trabalho “A Casa & A Rua” explica a brasilidade a partir desse pólo relacional, como sugere à página 136:

“O Brasil é o país do carnaval, e é também e simultaneamente a sociedade do “sério”, do “legal”, das comemorações cívicas e das leis que têm exceções para os bem-nascidos e relacionados. Tudo indica que fazemos como fez Dona Flor, buscando juntar sistematicamente esses pólos. O interessante é que não conseguimos perceber essas vertentes como dialeticamente relacionadas.

Nessa perspectiva, não teríamos uma essência brasileira: raças, religião, racionalidades, tristezas ou cordialidades. Teríamos, isso sim, uma configuração especifica, historicamente dada, em que se combinou o legalismo formalista e centralizador com as relações pessoais instrumentalizadas e imperativas”.

As ideologias, os esquemas tradicionais de interpretação, não estariam aptos a desvendar o Brasil e os brasileiros, e sim, as suas festas populares, dentre elas, a maior de todas, o carnaval, que permite a visão totalizante de nossas relações sociais, como bem esclarece o professor fluminense à página 116:

“É que o carnaval estabelece nas sociedades hierarquizadas um “continuum” marcado pelo diálogo e pela comunicação explosiva, sensual e concreta de todas as categorias e grupos sociais. As distâncias são eliminadas e isto precisamente porque o mundo está de cabeça para baixo, perdendo temporariamente a sociedade os seus centros regulares de poder e hierarquização. Há, pois, no carnaval, a possibilidade do surgimento de muitas vozes e de muitos diálogos, numa fragmentação e pulverização dos esquemas dominantes que se fundam num controle jurídico-religioso-político ancorado no Estado”.

A cultura brasileira convive com a ambiguidade relacional, em que se é pessoa em casa, e indivíduo na rua, em que as instituições e o Estado não são grande coisa, mas a amizade é uma “instituição” sólida, séria. O sociólogo francês Ferdinand Braudel completou o sentimento em entrevista à revista Veja, dizendo: “É por tudo isso que eu gosto do Brasil”.

Da Matta sugere que se faça a síntese positiva das leis com os amigos, assim, poderíamos ter melhor eficácia do jurídico.

Dizem que o escritor de “A Casa & A Rua” dentre os nacionais, é o autor preferido do ex-presidente-sociólogo Fernando Henrique, o que em parte explicaria o seu desejo de conciliar as múltiplas tendências, ações e atores da política brasileira. Se procedente ou não a informação, só ele poderá responder.

Por enquanto, tudo é carnaval, racionalizar é tarefa para depois da quarta-feira de cinzas.





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